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Cidadania

O valor público da educação não formal

Por IPCOM

Há aprendizados que dificilmente cabem em uma sala de aula. Aprender a participar de uma assembleia comunitária, produzir um documentário sobre o próprio território, desenvolver uma campanha ambiental ou criar conteúdos para mobilizar uma comunidade são experiências que também educam — ainda que aconteçam fora da escola.

Essas iniciativas fazem parte do campo da educação não formal, um conceito cada vez mais presente nos debates sobre cidadania, desenvolvimento social e participação. Em um contexto em que desafios como desigualdade, mudanças climáticas e transformação digital exigem aprendizagem contínua, compreender o papel desses espaços torna-se cada vez mais importante.

Educação para além da escola

O conceito de educação não formal parte da ideia de que o aprendizado acontece ao longo de toda a vida e em diferentes espaços sociais.

Segundo o pedagogo espanhol Jaume Trilla, referência internacional nos estudos sobre educação não formal, essa concepção deriva da noção de educação permanente, segundo a qual as pessoas aprendem continuamente, do nascimento à velhice. Por isso, a formação humana não pode depender apenas da escola: ela também acontece em diversos outros espaços educativos presentes na sociedade. 

No Brasil, uma das principais referências sobre o tema é Maria da Glória Gohn, socióloga, cientista política e pesquisadora reconhecida por seus estudos sobre movimentos sociais, participação e educação cidadã. Doutora em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP), Gohn define a educação não formal como aquela que ocorre em espaços coletivos de aprendizagem, nos quais as pessoas compartilham experiências, desenvolvem conhecimentos e constroem formas de participação social. 

A autora diferencia três formas de educação. A educação formal é aquela organizada pelas instituições de ensino, com currículos, normas e certificação. A educação informal acontece espontaneamente nas relações familiares, culturais e de convivência cotidiana. Já a educação não formal possui intencionalidade educativa, mas ocorre fora do ambiente escolar, em organizações da sociedade civil, projetos comunitários, movimentos sociais, museus, centros culturais, conselhos participativos e diversas outras iniciativas coletivas. 

Aprender também é participar

 A educação não formal cria oportunidades para que as pessoas aprendam fazendo.

Segundo Gohn, esse processo contribui para a formação de cidadãos capazes de compreender a realidade em que vivem, organizar ações coletivas, fortalecer vínculos comunitários e desenvolver uma leitura crítica do mundo. Ao participar dessas experiências, os indivíduos constroem identidade, pertencimento, autonomia e capacidade de atuação social. 

Essa perspectiva ajuda a compreender por que tantas experiências de educação não formal estão relacionadas ao fortalecimento da cidadania. O aprendizado acontece enquanto as pessoas produzem cultura, participam de decisões coletivas, desenvolvem projetos ou enfrentam desafios reais de seus territórios.

Quando a aprendizagem acontece em muitos lugares

Embora o conceito nem sempre seja conhecido pelo grande público, a educação não formal está presente em diversas iniciativas consolidadas no Brasil.

Programas educativos desenvolvidos pelo Museu da Pessoa, oficinas permanentes oferecidas pelo Sesc, ações de educação ambiental promovidas por organizações como o Instituto Terra e atividades realizadas em museus, bibliotecas e centros culturais mostram que aprender pode assumir formatos bastante diferentes daqueles tradicionalmente associados à escola.

Em comum, essas iniciativas utilizam experiências práticas, cultura, arte, ciência, comunicação e participação como instrumentos de formação cidadã.

Essa relação também se fortalece quando a comunicação passa a ser entendida como ferramenta educativa.

Produzir uma websérie, desenvolver uma plataforma de aprendizagem, criar um podcast, realizar oficinas de audiovisual ou formar jovens para produzir conteúdos digitais são iniciativas que vão além da divulgação de informações. Elas criam oportunidades para que diferentes públicos compreendam temas complexos, desenvolvam novas habilidades e participem de debates de interesse coletivo.

É por isso que comunicação e educação frequentemente caminham juntas em projetos voltados ao desenvolvimento social.

O papel das organizações da sociedade civil

Nos últimos anos, organizações da sociedade civil passaram a desempenhar papel cada vez mais relevante nesse campo.

Um estudo publicado em 2024 na Revista Políticas Públicas e Cidades destaca que a educação não formal possui uma longa trajetória ligada à promoção da cidadania e da igualdade de oportunidades, especialmente entre populações em situação de vulnerabilidade. Os autores também ressaltam que essas iniciativas não substituem a educação escolar, mas ampliam as experiências formativas dos participantes, fortalecendo aspectos como autonomia, pertencimento, diversidade e participação social. 

Essa atuação complementa a escola ao oferecer espaços de aprendizagem conectados às experiências concretas das pessoas e aos desafios de seus territórios.

Projetos desenvolvidos pelo IPCOM partem desse entendimento. Ao conceber iniciativas que unem comunicação, audiovisual, educação e participação social, o Instituto busca transformar conhecimento em experiências acessíveis e conectadas à realidade dos participantes.

É o caso do Curso de Formação para Jovens Influenciadores Digitais, desenvolvido em parceria com a Estação Itimirim, em Iguape (SP). A iniciativa combina oficinas de comunicação digital, produção audiovisual e educação ambiental para estimular o protagonismo juvenil e fortalecer a relação dos participantes com seu território.

Além de ensinar técnicas de comunicação, projetos como esse demonstram como a educação não formal pode contribuir para formar cidadãos mais preparados para compreender, participar e transformar a realidade em que vivem.